Chá

Ana apertou as mãos como se isso pudesse lhe dar um pouco de calma, fechou os olhos e puxou o ar contando mentalmente 1… 2… 3… segurou por alguns segundos e em seguida soltou o ar contando novamente, devagar, mas ainda assim o nervosismo estava lá, apertando seu estômago, como se estivesse novamente na formatura da pré-escola, prestes a entrar no palco para um teatro cheio de gente, desconhecidos e sua família assistindo o que poderia ser um momento de orgulho ou de vergonha, o primeiro de muitos, mas por ser o primeiro, parecia que toda a sua vida seria definida ali, em alguns passos…mais tarde, descobriria que aqueles passos não eram nada demais, mas ali, naquele momento era tudo, igual agora, mas a diferença era que aquele momento, realmente era tudo…

Andou de um lado para outro na cozinha tentando não pensar, checou mais uma vez a mesa, o forno, o molho no fogão, antes de se sentar na mesa da cozinha apoiar o cotovelos sobre ela e esconder o rosto entre as mãos, estava muito nervosa, quer dizer muito nervosa era quase leviano sobre o que estava sentido, ela se sentia um condenado á morte inocente indo para a forca, embora fosse contra a pena de morte em qualquer situação, era a primeira vez que encontrava Cristina depois daquele fatídico sábado, era pra ser só mais um sábado qualquer, mas a coisa degringolou de uma maneira que acabou culminando no jantar desta noite… um mês depois… tudo culpa dela, que ficou com língua solta demais, empolgada demais e soltou algo que não tinha tido tempo de elaborar apropriadamente e agora tudo estava por um fio, eu corpo dizia isso, seu coração dizia isso, seu estomago, bem… seu estomago gritava isso a cada contração e era bem pior que borboletas no estômago.

— Então? — Cristina perguntou enquanto se sentava, não era a primeira vez que se encontravam após um dos encontros de Ana, era bem divertido na verdade, enquanto bebiam conversavam sobre a performance em questão se divertiam com as gafes cometidas.

— Saí antes dele acordar — respondeu sucinta dando de ombros e em seguida um gole no seu mojito — isso é melhor que muito sexo que eu já tive na vida — completou com um sorriso. —  Vai beber o que?

Cristina riu do comentário da amiga concordando para em seguida erguer o braço para chamar o garçom.

— Acho que vou pegar mojito também, — começou pensativa — tenho necessitado de um sexo bom — completou abrindo um sorriso fazendo a amiga rir.

— Esses dias eu estava pensando — começou distraidamente, enquanto o garçom se aproximava e anotava o pedido da amiga. — Se bebidas fossem sentimentos, que sentimentos seriam… já parou pra pensar nisso?

— Tá com muito tempo à toa pra pensar essas coisas ein? — bricou, — e que conclusão chegou?

— Bem, você sabe o modo caótico que minha mente funciona… daí saem essas coisas loucas. —  Deu os ombros — mas vamos lá, veja se concorda, primeiro pensei na vodka, que eu classificaria como ciúmes.

— Estou interessada na justificativa

— bom, a vodka é amarga pura, mas no drink na dose certa, fica gostoso você não sente realmente, e no fim te derruba, então tem que prestar atenção, se for muito de uma vez no drink ele fica amargo e ruim, igual ciúmes, mas mesmo se for pouco, não dá pra ficar desatento, temos que prestar atenção, porque ele começa de pouquinho, gostosinho, disfarçado de cuidado e quando você percebe você já tá completamente intoxicado e quando já começa com muito já no inicio do relacionamento estraga ele, igual o drink.

—  Faz sentido, o próximo

— Rum é paixão — disse com os olhos brilhando — tem um gosto marcante, mas não forte demais, e misturado com outras coisas sempre tem um frescor.

— E cachaça então? Não seria melhor pra paixão? Ela também tem o gosto marcante e é refrescante.

— nãããão, cachaça é tesão, é semelhante à paixão, mas tem um gosto mais forte e intenso, igual o tesão, embora os efeitos do tesão passem mais rápido que a cachaça — riu sendo acompanhada pela amiga.

— Tá tem razão… e a cerveja?

— Cerveja é maturidade — Cristina fez cara de interrogação — ela tem o amargo da vida, mas é um amargo que você aprende a apreciar, curtir e tirar o melhor dele, quando cê é imaturo, o amargo muitas vezes destroí o seu dia, como também é uma dificuldade quando você começa a beber a cerveja, mas com o tempo, cê vai aprendendo a gostar, a ver o amargo como uma coisa diferente, como as coisas que nos fazem crescer na vida, muitas vezes não tem um gosto agradável no começo, sem contar que existem vários graus de amargor na cerveja, tal qual situações na vida.

— Nossa que profundo.

— Não é? Acho que vou escrever uma tese sobre isso.

As duas caíram na gargalhada.

— Sua banca de mestrado vai amar — Cris respondeu ainda rindo

— Eu ia amar escrever uma tese assim — disse com um sorriso terminando seu drink e fazendo sinal para chamar o garçom, pedindo mais um e umas batatas fritas.

— Não ia não

— Verdade, não ia não.

— Tá, agora você me deixou curiosa, e o amor? Seria o que? Vinho?

Ana riu

— Não, vinho, vinho não…chá.

Cris arregalou seus olhos.

— Chá?

— É, chá, chá te abraça por dentro, tu não dá nada por aquilo, uma agua quente com gosto, grande coisa, normalmente vivemos, pelo café, uma ode ao café e todo mundo esquece do chá, chá é amor liquido, ele te conforta por dentro, ele desce delicado e faz espalhar um calor gostosinho que você são sabia que sentia falta até ele estar ali se espalhando por cada célula do seu corpo e então cê torce pra nunca mais ir embora, só que ele as vezes é tão suave que demora um pouco pra perceber que ele tá ali, mas é engraçado que quanto tu percebe, parece que tudo ganha um novo sentido.

— Uau, agora cê me deixou impressionada. Quando cê teve tempo de pensar tudo isso?

— Hoje de manhã — respondeu dando um gole no drink que acabara de chegar e aproveitou pra pegar uma batata frita que havia chegado junto.

— Na casa do cara que você fugiu?

Ana riu

—  Eu não fugi, só saí antes de ele acordar.

— Fugiu — repetiu como se chegasse a uma conclusão irrefutável.

— Tá, fugi, feliz, sim por isso que eu fugi.

— Por quê?

— Porque ele era cachaça.

— Tem certeza? Ele não pode ser chá?

— Tenho.

— Por quê? Já tem chá na sua vida.

— já amiga. — respondeu olhando alguma coisa no celular— você é o chá. — Soltou distraidamente.

Os olhos de Cris arregalaram

E Ana arregalou os olhos em seguida.

19:59

Ana olhou para o relógio no alto da parede da cozinha e respirou fundo, o molho estava pronto, o forno estava desligado, a sobremesa estava esfriando, estava tudo dentro do planejado, quando ela chegasse era ter seu tradicional jatar mensal e a fatídica conversa, já tinha trocado de roupa e passado um creme no rosto, nunca havia gostado de maquiagem ou batom, havia colocado um vestido e… Meu deus estava agindo como se fosse um encontro.

O relógio marcou oito horas e ela respirou fundo, e contou lentamente até dez, recitou alguns mantras, mas nada acalmava a festa louca que estava em sua cabeça, e se ela a rejeitasse, pior, se ela decidisse cortar relações, caso não, ela já tinha o discurso preparado para pedir que não se afastasse, riu de si mesma, parecia que tinha voltado para adolescência quando achava que ia morrer se fosse rejeitada, a parte pior é que era sua amiga, sua melhor amiga, se ela se afastasse, não era um crush qualquer…

Se perguntou se tinha valido a pena ser tão linguaruda aquele dia… “não, não valeu” pensou, o encontro depois do susto, ficou meio capenga por um tempo, mas tinha terminado bem aquele dia, beijos nas bochechas de despedida, um abraço e reforçaram que iam se encontrar no jantar mensal e tinha sido isso, depois disso nada, nem uma mensagem, ela havia desaparecido…

Foi na cozinha pegar um pouco de água, sentia garganta seca, a espera estava a matando, o líquido desceu cortando parecia que tinha engolido navalhas ao invés de água, talvez não beber mais água fosse sábio naquele momento, puxou o ar pelo nariz e soltou pela boca, e a campainha tocou quando colocou o copo na pia. Respirou fundo, puxou o ar pelo nariz e soltou pela boca e se dirigiu para a frente do apartamento.

Abriu a porta.

 Ela amava aqueles olhos cor de jabuticaba, eles tinham um brilho tão maravilhoso que se perguntou como demorou tanto tempo pra perceber que sempre sorria quando os encontrava, igual estava sorrido agora, parada feito uma estátua na porta, vendo aqueles cachos emoldurarem aquele rosto suavemente quadrado e lábios grossos e gentis.

— oi Ana — disse Cris timidamente, abrindo um sorriso sem graça enquanto colocava alguns de seus cachos atras da orelha.

— Cris, tudo bem? —  Sorriu sem graça também dando espaço para a amiga entrar e fechando a porta em seguida.

— Trouxe vinho — a amiga balançou a garrafa que segurava, — seu preferido, pensei em trazer chá, mas… — disse abrindo um sorrido sem graça pela tentativa de piada

— Chá? —  Ana perguntou pegando a garrafa e colocando no balcão da cozinha americana.

— é, chá, — começou se aproximando da amiga que ainda estava no balcão, — não foi você quem disse que chá…?

— Eu disse…  mas…— começou, mas foi interrompida.

— Tá com algo no fogo? — perguntou olhando a cozinha enquanto Ana sem saber o que fazer encarava a garrafa de vinho.

— Não, falta pouco pra finalizar, com fome? — disse enquanto caminhava para a cozinha para pegar um saca rolha na gaveta.

— Não muita, dá pra esperar. Enfim, como disse, pensei em trazer chá, mas acho que não combinaria muito com o que a gente vai conversar hoje. Precisa de ajuda? —  Perguntou debruçando sobre o balcão observando a amiga ficar nervosa enquanto abria o vinho.

O coração de Ana se apertou e ela sentiu seu estômago afundar.

— Pelo amor Cris não dá só pra esquecer isso voltar a ser como antes? — Ana não conseguiu esconder a irritação na voz, mas isso pareceu não abalar a amiga, que riu.

Ana serviu o vinho em duas taças e entregou uma para amiga.

— Esquecer? — disse ainda com um sorriso brilhante nos lábios — a declaração mais inesperada que já me aconteceu? Jamais, inclusive pretendo contar pros nossos filhos ou sobrinhos ou qualquer agregado que se venha a juntar a família.

— O que? — Ana estava confusa, olhando a amiga que parecia sorrir sonhadora

— Imagina só, eles viram pra mim e falam “mãe”, ou “tia Cris”, não importa muito, eles viriam pra mim e perguntam: “como a tia/mãe Ana se conheceram?” e eu respondo: “ahhh foi na escola, e não foi nada romântico, apenas meu livro de português não tinha chegado ainda e eu tive que sentar com ela pra acompanhar a aula, ordens da professora.” “Tá, e foi assim que vocês ficaram juntas?” eles vão perguntar — faz uma pequena pausa e dá um gole no seu vinho e ri novamente da cara da amiga — e eu respondo “não tenho certeza de que alguma coisa tenha mudado, só acho que sempre foi, mas a tia/mãe Ana sempre foi meio lerda pra perceber” — riu novamente — “mas sempre esteve lá.”

— Caralho Cris, tu tá realmente fazendo isso?

— Fazendo o que? — perguntou com uma cara lerda.

— Isso?

— Dizer que consigo imaginar um futuro com você? — parou por um segundo colocando o dedo no queixo como se refletisse. — Estou… — olhou dentro dos olhos de Ana — porque eu realmente consigo imaginar um futuro com você.

Ana puxou o ar como se fosse a primeira vez que respirasse em toda a sua vida.

— O que?

— Chá, Ana, não foi você que falou de chá, algo que vai te aquecendo por dentro, aquele calorzinho reconfortante que você não sabia que sentia falta, não foi isso que você disse? Eu só trouxe vinho porque achei que combinava mais com um pedido de namoro que chá…

Ana riu.

— E tinha que esperar um mês pra falar? — Ana se exaltou — caralho eu passei um mês sofrendo porque achei que você não ia nunca mais olhar na minha cara — colocou a taça no balcão que separava a sala da cozinha e começou a andar de um lado para o outro — que eu ia perder você, passei um mês remoendo aquele dia achando que nunca mais te veria, que tinha perdido uma amiga, eu… que..— seus olhos começaram a encher de lágrimas e ela escondeu o rosto entre as mãos e puxou o ar com força.

— Caralho Ana — olhou perplexa pra amiga — eu te falei que ia passar um mês sem telefone mulher, esqueceu? Tava indo pra um lugar sem sinal e meio isolado, até telefone normal lá é difícil, cheguei na madrugada de hoje mulher, enfim, o que eram só mais algumas horas, sem contar que a gente nunca foi muito de mensagem, por que agora seria diferente? Achei que você ia ficar feliz.

Ana arregalou os olhos e começou a rir

— Eu…sou uma idiota — disse baixinho e cris sorriu com doçura.

— Não é, — aproximou-se da amiga e abraçou-a — é alguém com péssima memória? É — disse arrancando uma risada sem graça da amiga — mas você tá longe de ser uma idiota. Agora entendi porque cê tava surtada até agora pouco. — Suas mãos passavam delicadamente pelas costas da amiga, enquanto ela chorava. — Agora, todo esse choro não era o que eu esperava quando propus o namoro.

Ana riu

— Tá okay, admito, esperava sim porque você é drama em pessoa, super emocionada, mas esperava umas lágrimas alegrinhas sabe…

— Ahh pelo amor Cris, quer que eu desenhe pequenos sorrisos nas lágrimas agora? vão estar felizes o bastante pra você — Cris riu ao ser empurrada por Ana e a encarou com um sorriso doce.

— Ajudaria muito — respondeu sorrindo, as duas riram, — mas você ainda não me respondeu

— Responder o que? —  Perguntou indo até a pira para lavar o rosto, era uma sorte não ser muito fã de maquiagem.

— Porra mulher vou ter que falar com todas as letras mesmo?

— Bom, tu me chamou de lerda, agora se esforce — ela deu um sorriso cínico pra amiga que fuzilou com olhar por um segundo antes que o mesmo suavizasse.

— tudo bem então — ela deu um gole em seu vinho e andou até amiga — esse jantar hoje vai ser muito especial, porque eu espero real que seja nosso primeiro jantar de namoradas, enfim, já que você quer toda a baboseira romântica, vamos lá —  cris enfiou a mão a bolsa tirando uma caixinha e deixou a bolsa sobre o balcão, voltando para a amiga e colocando-se de joelhos —  ana minha querida, quer namorar comigo? — perguntou abrindo a caixinha e estendendo para a mulher a sua frente.

— Pela deusa, é claro que aceito, você até comprou alianças… de coco? —  Estava um pouco perplexa.

Só um pouco.

— Gostou? — perguntou colocando-se de pé — na verdade eu comprei de prata mesmo, mas peguei essas de coco pela piada, as de verdade estão na bolsa.

— Idiota — Ana sussurrou sorrindo — podia ser um fitilho amarrado no dedo que eu acharia romântico.

— Posso te dar de presente de um ano de namoro. — respondeu dando os ombros.

— Duvido — respondeu ainda olhando as alianças de coco, colocando uma no dedão e pegando a mão da amiga para encaixar a outra.

— Sabe o que tá faltando? — Cris perguntou erguendo delicadamente o rosto da amiga, agora namorada para olhar para ela.

— O que? —  Ana perguntou um pouco aérea.

— Nosso primeiro beijo — disse com um sorriso sendo correspondido pela namorada

— Agora não falta mais — respondeu segurando o queixo de Cris e se aproximando daqueles lábios que, igual aos olhos, sempre a haviam hipnotizado.

Publicado por ladythekilla

"E toda noite eu arranco o meu coração, de manhã ele volta a crescer..." Letuce

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